Voar (16 on 16)

Os versos de Coldplay tocavam em sua mente em looping infinito, mesmo que o cômodo no qual se encontrava estivesse tomado pelo silêncio. De fato, ninguém nunca havia lhe falado que crescer seria fácil mas, verdade seja dita, nunca lhe disseram que a caminhada seria assim, tão difícil.

Mesmo deitada em um colchão de solteiro, rolava de um lado para o outro enquanto os pensamentos rodavam por sua mente em uma velocidade infinitas vezes mais rápido.

Esquerda.

A faculdade não ia bem. Sentia vontade de desistir sempre que punha os pés na sala de aula, mas lembrava-se do quanto batalhara para ver seu nome na lista dos aprovados. Foram horas dedicadas aos estudos durante todo o ensino médio, sem contar o investimento que os pais haviam feito para mantê-la na instituição particular.

Direita.

A culpa em pensar em desistir era confortada pelos motivos que a incentivavam a tomar aquela decisão. Não se sentia confortável em sala de aula, nem muito menos contente com seu rendimento nos trabalhos pedidos por cada professor. Não conseguia se envolver o suficiente com os conteúdos ao ponto de se imaginar aplicando-os em sua vida profissional, no futuro. Claro, faculdade não é nem de longe o que a realidade reserva. Ah, não. Um estágio seria muito mais eficaz nessa tarefa, com toda a certeza. Mas, urgh, só de pensar em estágio suas entranhas já congelavam.

Esquerda.

Os relacionamentos estavam abalados. Sentia-se afastada de tudo e todos e a desculpa, para variar, era sempre a mesma.
Falta de tempo. Correria do dia-a-dia. Muitas responsabilidades. O trabalho exige hora extra de vez em quando, vamos precisar marcar para outro dia. Potz! Verdade! Tínhamos combinado de nos ver, né? Desculpa!
Sentia-se sozinha em um mundo apinhado de gente.

Direita.

Tentava dar sequência a novos projetos. Ô se tentava! Queria se reanimar, encontrar novas motivações, novos motivos para sorrir. Mas os poréns estavam ali, para atormentá-la. Os projetos envolviam caminhos completamente diferentes, é claro. É novidade, afinal de contas! Essas novidades, no entanto, também exigiam novas interações e isso a amedrontava. Iniciar conversas, manter diálogos, céus! E quando conseguia ao menos se aproximar de alguém, sentia-se como uma estranha no ninho. Nunca haviam dito que conversar com desconhecidos era assim, tão assustador, tão complicado.

Esquerda.

O cérebro continuava se movimentando à toda. O corpo, no entanto, encontrava-se preso ao cobertor que havia estendido no colchão antes de se deitar. Entre uma rolada e outra, terminara enrolada. Era um grande pequeno casulo, mas, infelizmente, não se sentia em fase de transição rumo ao último estágio, a borboleta. Não. Tudo o que ansiava era voltar ao início, tomar novas escolhas, mas, veja, criança, este é um casulo e não uma máquina do tempo.

Ninguém nunca lhe disse isso, mas a verdade é que sua única saída é criar asas e voar.

***

Esse post é referente à minha participação no projeto literário 16 on 16, que é composto por 16 blogueiros que postam textos baseados em um tema estabelecido em conjunto. Para março o tema escolhido foi “A surpreendente verdade que nunca te contaram sobre…“. Os outros participantes são:

Ariana, Ghiovana, Camylli, Daniela, Fernanda, Lianne, Lys, Máira, Marlana, Thaís.

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18 comentários sobre “Voar (16 on 16)

  1. Meu Deus! Que texto é esse Nicolle? Lindo! Meu problema com a vida adulta não chegam a todos os níveis da sua personagem, mas sei exatamente a confusão da faculdade e da via profissional… Não somos jovens demais para escolhermos o que seremos a vida inteira? Não somos tão mutáveis ao ponto de querermos mais um tempo para pensar? Meu texto deste mês foi exatamente sobre isso. Precisamos deixar o medo e sair desse casulo, a vida acontece aqui fora, ela é uma só, não podemos deixar passar.
    Beijos, pequena *-*

    http://www.princesasadoradoras.com.br

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  2. Amei este texto. As pessoas sempre dizem pra aproveitar a infância enquanto é tempo e que a vida adulta é cheia de responsabilidades, mas eu não tinha noção da dificuldade! Eu me identifiquei muito com este texto. Já pensei 1000 vezes em largar meu curso na universidade, mas desisto da ideia quando lembro da dificuldade que foi entrar e o quanto desapontaria minha família. Agora vou empurrando até o fim e me perguntando se as coisas vão mudar quando eu começar a trabalhar. Eu passei um bom tempo como uma lagarta no casulo, tentando criar coragem para seguir em frente com minhas escolhas… Mas vamos continuar porque ainda tem muita coisa pra acontecer. Agora é lutar pelos sonhos e pela felicidade. Beijosss, adoro teu blog!

    http://www.myrlenaraquelly.com

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    1. Menina, quando crianças nós não tínhamos noção de nada ç__ç Nós chegávamos nos lugares e já encontrávamos médicas, médicos, policiais, taxistas e, sei lá, na visão de uma criança é como se eles sempre tivessem estado ali. Não tínhamos essa noção que pra conseguir uma profissão, era necessário tanto estudo, tanto esforço, tanta persistência. Não parávamos pra pensar que eles precisaram percorrer um longo caminho pra chegar onde chegaram.

      E quando nós nos damos conta de tudo isso, nossa, é um baque. Geralmente acontece quando já estamos passando por dificuldades semelhantes, né? ;-;

      Mas, assim, eu acredito que essas confusões sejam a coisa mais normal do mundo (o que, infelizmente, não torna nada mais fácil, né?). Aos poucos nós vamos encontrando as respostas para os questionamentos – e novas perguntas vão acabar surgindo. Faz parte hahahaha

      Nhom, obrigada, Myyyy ;-; <3333

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  3. A identificação com o seu texto foi imediata Nicolle. Há não tanto tempo, eu terminei a faculdade e sei muito bem como se configura essa instabilidade emocional decorrente desse período conturbado e inquietante da vida. Porém, olhando para trás, percebo que tudo foi parte de um processo maior, um processo inestimável de maturidade e autoconhecimento. Espero que você consiga também enxergar a sua realidade dessa forma. 😉

    Adoro Coldplay e sua citação foi ótima, realizando um link, intencional ou não, com uma das melhores canções da banda “The Scientist”.

    Beijos

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