Minha liberdade (16 on 16)

Era 2005. Tinha pouco mais do que onze anos e, na época, começava a dar os primeiros passos com a leitura na companhia de Meg Cabot e Mia Thermopolis, a menina que não sabia que era, na verdade, uma princesa. J.K. Rowling não demorou para chegar com Harry Potter, Hermione Granger e Ron Weasley e os quatro trouxeram, junto com todas as outras personagens, um cotidiano mais mágico. Logo Sérgio Klein lhe apresentou o diário de uma garota que tinha o mundo nas mãos e descobriu com Thalita Rebouças que as personagens dos livros também poderiam ser fãs e fazer Tudo Por um Popstar.

Estava achando fantástico o quão criativas as pessoas conseguiam ser e como eram capazes de unir a criatividade às palavras, criando universos diferentes, tramas que prendiam completamente a atenção e personagens cujas personalidades eram inspiradoras, até. Mas foi graças à comunidade “Fanfics do Simple Plan” aberta no finado Orkut que os seus olhos começaram a enxergar outros horizontes.

Cada tópico aberto naquela comunidade era referente a uma história fictícia, com os integrantes da banda Simple Plan sendo as personagens. Mas não eram histórias que ela estava acostumada a ler nos livros. Não eram escritas por autores com obras publicadas, nem muito menos por pessoas renomadas. Aqueles que escreviam eram meninos e meninas tão jovens quanto ela. Eram crianças, pré-adolescentes e adolescentes que criavam as mais diversas situações com seus ídolos e, céus, era tão divertido ler aquilo!

Imagina o quão incrível deve ser fazer um intercâmbio para outro país e conhecer seu ídolo nessa aventura? Pensa no quão maravilhoso deve ser conseguir conquistar o amor dessa pessoa que tanto admira e que parece tão inatingível? E, nossa, como seria escrever uma história onde você consegue ir a um show dessa banda depois de muito pedir, insistir, até suplicar para os seus pais? Imagina se nesse show acontece um sorteio de última hora sendo o prêmio ir ao camarim para encontrar o Simple Plan? E se a personagem principal for a sortuda que ganhará essa oportunidade?! Nossa, deve ser realmente legal escrever sobre isso…

Então ela escreveu, no caderno mesmo.

Seus dedos desenhavam as palavras no papel, a tinta da caneta preenchendo cada linha, cada página e pouco importa se a mão começou a doer! Deixar essa história fluir é divertido demais para simplesmente interromper a escrita por causa de um simples incômodo nas mãos. Ela só queria tirar de sua cabeça aquelas ideias que havia formulado e parecia ser tão certo continuar escrevendo! Tão certo que ela não viu mal algum em continuar, mesmo sentindo a mão latejar.

Na escola percebeu que as amigas também se interessavam por aquele universo alternativo. Gostavam de ler as histórias que fãs criavam e gostavam ainda mais de criar suas próprias histórias. Cadernos única e exclusivamente para essa atividade foram comprados, ideias e situações eram colocadas neles e no intervalos das aulas passavam suas criações para a amiga sentada na carteira ao lado, para que ela pudesse deixar no final seu comentário referente ao que havia acabado de ler, exatamente como faziam no Orkut – a diferença mesmo é que as coisas não eram digitadas. Seriam quando chegassem em casa, mas ali, na sala de aula, as coisas fluíam à mão livre.

Era divertido. Era absolutamente divertido. E ela amava aquela diversão.

As ideias também não paravam de pipocar em sua cabeça. Era impressionante. Quanto mais escrevia, mais tramas lhe ocorriam. Hoje ela olha pra trás e conclui que eram sinopses completamente irreais – quais as chances de encontrar um ídolo dentro do shopping e outro no estacionamento quando está indo pra casa? -, mas naquele período de sua vida nada daquilo importava. O universo era seu e nele ela poderia fazer o que desse na telha.

Conforme foi crescendo o cenário começou a mudar. Era legal ler algo imaginando Sebastien Lefebvre, Pierre Bouvier, Jeff Stinco como personagens, mas aqueles ali retratados não eram realmente os integrantes da banda. Sendo assim, por que não criar personagens ao invés de idealizar uma pessoa real neles? As personagens masculinas começaram a adquirir um novo formato. Passaram a ser elas próprias e não a imagem de um homem que dificilmente encontraria na vida. Imaginar-se em um show invadindo camarins e quartos de hotéis é empolgante, mas quais são as chances disso realmente acontecer sem que você seja presa? A visão começava a amadurecer.

Chegamos em 2009. Ela agora tem quatorze anos e foi apresentada a um mundo chamado Role Playing Game, ou simplesmente RPG. Jogos que se desenrolavam em fóruns, onde cada player – ou seja, cada jogador -, criava a sua personagem. Dava um nome à ela, uma história de vida, uma personalidade, escolhia algum famoso para ser o photoplayer – o rosto da personagem. Outros players apareciam, criavam as suas personagens e cada jogador começava a interagir com o outro, criando tramas entre as personagens. E todas as tramas eram desenvolvidas através da escrita.

Mas não aquela escrita onde você descrevia as ações de suas personagens entre asteríscos, como *apertei a mão dela*. Não. Eram narradas, exatamente como as fanfics. “Ela me estendeu a mão, confiante, e eu, educadamente, correspondi ao seu cumprimento.”

Assim, funcionava da seguinte forma: vamos supor que a sua personagem ia à festa do pijama da outra. Você escrevia um pouco e parava quando chegava na casa da amiga, por exemplo. A partir desse ponto, a outra player dava continuidade à narrativa. Iniciava-se uma história escrita por várias mãos. As fanfics eram legais e sempre teriam um espaço especial no coração daquela que estava escrevendo, mas o RPG acabou por roubar toda a sua atenção.

Vários fóruns vieram. Em um a trama se desenrolava em um colégio interno. O outro, na faculdade. Também tinha aquele cujo cenário era São Paulo! E por que não adotar um universo mágico que já existe, como as personagens serem estudantes de Hogwarts? Ou então criar situações no Acampamento Meio-Sangue. Vampiros, lobisomens, ficção científica também são ótimas tramas a serem trabalhadas com personagens criados por aqueles que jogavam, todos escrevendo em conjunto. A criatividade sendo colocada à prova a cada desafio imposto por aqueles que comandavam os jogos – os mestres, os administradores do fórum.

Amizades começaram a ser feitas no processo. O player daquela personagem é tão legal, por que deixar uma boa conversa passar, não é mesmo?

Mas chegou o momento em que ela não se prendeu somente a jogos e histórias inventadas. Os problemas pessoais começaram a falar mais alto. A decepção causada por uma amizade, a sensação de estar sozinha, o medo de não conseguir seguir em frente. Transformar os próprios sentimentos em palavras escritas também é bom, ela percebeu. Mais do que uma diversão, a escrita também poderia ser uma ótima forma de desabafar, colocar a boca no mundo. Escrever é sinônimo de liberdade, concluiu.

E assim foi crescendo, amadurecendo, mas nunca deixando de escrever. Às vezes a escola (e dali alguns anos, a faculdade também) não permitia que escrevesse tanto quanto gostaria, afinal tinha de estudar para a prova de português, de matemática e biologia, mas colocar as palavras no papel e na tela do Word não foi um costume que se perdeu com o tempo. Pelo contrário. Foi um costume que amadureceu com o passar dos anos, tornando-se cada vez mais instigante, mais prazeroso.

E é por isso que ela escreve. Pelo prazer em criar personagens, tramas e pela possibilidade de conhecer pessoas interessantes por meio de um canal tão rico quanto o da escrita. Escreve para aliviar os tormentos que se apossam de seu coração vez ou outra. Escreve para viver, libertar-se. Bloqueios criativos acontecem? Mais do que aquela que escreve gostaria. Nossa, muito mais. E isso desanima (de monte), claro que desanima. Dá a sensação de que nunca mais será capaz de escrever e criar, só que a desistência não é uma opção.

***

Cá está o texto referente ao 16 on 16 de abril! Vamos dar uma olhada no trabalho dos outros participantes?

Alexandre, Ariana, Bárbara, Camylli, Fernanda, Ghiovana, Lianne, Lys, Máira, Mari, Marlana, Thaís e Vitor.

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14 comentários sobre “Minha liberdade (16 on 16)

  1. “Os problemas pessoais começaram a falar mais alto. A decepção causada por uma amizade, a sensação de estar sozinha, o medo de não conseguir seguir em frente. Transformar os próprios sentimentos em palavras escritas também é bom, ela percebeu. ”

    O maior motivador dos meus escritos. E como eu cresço a cada texto.
    Ficou lindo teu texto Nicolle!
    Beijo

    arianacoimbra.blogspot.com

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    1. Essa é uma das coisas mais gostosas na escrita, também. Ler um texto do passado, um de agora e perceber como você evoluiu, e não apenas em vocabulário. Como seus pensamentos foram mudando, como os sentimentos ficaram mais intensos, mais profundos. Escrever é uma verdadeira lição.

      Obrigada, Ariana :3

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  2. Meg Cabot, de certa forma também me iniciou, rs. Vários nomes que foram citados eu recordo de ler na minha adolescência, foram de grande ajuda e incentivo. Bom fazer essa revisão né? Ver como de fato aconteceu o Eu de hoje.
    Parabéns!

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    1. Meg ❤ Faz um tempão que não leio nada dela, sinto falta.

      Ao meu ver, a leitura é um passo fundamental para começar a escrever, então sou muito grata a esses nomes (sejam eles conhecidos ou não) por terem aparecido na minha pré-adolescência (e no caso de alguns, está presentes até hoje).

      Valeu, Lys :3

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  3. Não fui uma escritora de fanfics, mas li várias! Você me fez lembrar do passado rsrs
    Me identifiquei horrores com a senhorita, minha entrada no mundo da escrita foi influenciada por tudo que li, mas também por tudo que vivi, foi durante dias tristes que descobri que o papel e a caneta eram meus amigos e que me ajudavam tanto quanto falar tudo que estava acontecendo comigo para outra pessoa. Não dá pra imaginar a vida sem a escrita, não dá!
    História linda essa sua, Nicolle! Que este amor só cresça!
    Ah, o texto estava tão bom que deu vontade de ler mais. 😀

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  4. Muito interessante sua história Nicolle. Essa forma de enxergar a escrita como um meio único de expressar tudo o que nos compõe, inclusive a nossa incompreensão, é o diferencial daqueles que escrevem por hobby e daqueles que escrevem por paixão, como fonte de vida. Você faz parte do segundo grupo!
    Beijos!

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  5. Que cantinho mais gostoso Nicolle, e adorei a forma como você descreveu o seu envolvimento com a escrita, e é sempre assim, as histórias vão fluindo, a mão vai doendo e você não quer parar de escrever. Hoje em dia os bloqueios são mais frequentes para mim, mas já tive épocas de ficar com a mão doendo de tanto escrever. E viajar por esse mundo de fantasias e invenções é muito gostoso.

    Beijos

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    1. É uma delícia quando a inspiração chega e tudo o que nós sentimos vontade de fazer é deixá-la fluir, né? Eu amo tanto quando isso acontece *-* Hoje minha mão já não dói tanto porque tô conseguindo escrever única e exclusivamente no computador, coisa que não rolava antes (eu só conseguia escrever se começasse no papel!). Só esses dias que eu simplesmente _precisaaaaava_ colocar pra fora e a única coisa que tinha à mão era o papel e a caneta, então não teve jeito hahahaha Bloqueios são péssimos, realmente, e esses tempos mesmo enfrentei um que abalou todas as minhas estruturas, mas passou. Eles sempre passam. A melhor coisa a se fazer nessas horas, Bárbara, é descansar a mente com outras atividades – leitura, ver séries, filmes, escutar uma música, caminhar – e nunca, jamaaaaais, se forçar a escrever. As coisas simplesmente acontecem ❤

      Fico feliz que tenha gostado do meu cantinho *-* Muito obrigada!

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  6. Adorei seu texto, Nicolle. Muito inspirador e bem escrito. Me identifiquei bastante com alguns trechos, principalmente em relação a Harry Potter. Me lembrei do tempo em que frequentava fóruns, grupos e lia fanfics sobre a série.

    Adorei conhecer o seu cantinho. *___*

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